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quarta-feira, 8 de abril de 2020

Suicida confiança ocidental nos remédios chineses

Médicos exumam restos de panamenhos intoxicados com remédios chineses. Fonte New York Times
Médicos exumam restos de panamenhos intoxicados com remédios chineses.
Fonte New York Times
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






A pandemia do novo coronavírus foi reveladora de perigosos desenvolvimentos na organização do trabalho e da economia mundiais.

Um deles – e não dos menores – foi o patenteamento da dependência ocidental de remédios de uso continuado e indispensáveis a muitos doentes, cuja produção foi transferida para a China com vistas à obtenção de melhores preços.

Nos países europeus multiplicaram-se os clamores pela escassez de ingredientes farmacêuticos indispensáveis e pela necessidade de repatriar sua produção aos respectivos países.

Reconstruir a capacidade de produzi-los requererá alguns anos, se for possível, observou o jornalista Vincent Lorin, do site VoxEurop.

Mais uma razão para se começar logo a repatriação.

Bastou uma nova mutação do velho coronavírus – causa de resfriados, mais graves em sua nova versão Covid-19 – para que milhões de europeus ficassem potencialmente privados de smartphones, malas, smokings, sapatos e roupas, brinquedos de pelúcia, presentinhos fabricados na China...



Mas falou-se pouco do mais preocupante, que são os remédios. E se entende o pânico que poderia causar.

A Europa está numa dependência excessiva da “fábrica do mundo” em medicamentos essenciais.

Não se trata dos mais novos ou mais caros que são produzidos na Europa ou nos EUA, trata-se dos genéricos, mais baratos e sem patente, que são críticos para o maior número dos doentes.

Antibióticos amplamente utilizados como amoxicilina; analgésicos como aspirina e paracetamol; vacinas contra hepatite B; até medicamentos como o bussulfano e o ácido zolendrônico estão entre esses.

Pelo menos 18 pessoas, na maioria de Guangdong, em 2007 morreram num mês ingerindo remédios contaminados. Fonte New York Times
Pelo menos 18 pessoas, na maioria de Guangdong, em 2007 morreram num mês
ingerindo remédios contaminados. Fonte New York Times
Na França, 538 medicamentos de “grande interesse terapêutico” enfrentaram escassez em 2017.

Na Holanda, houve 2044 relatos de escassez iminente ou real no primeiro semestre de 2019. Os pacientes foram forçados a se arranjar sem eles ou com medicamentos menos eficazes.

A produção chinesa é de má qualidade. O governo fechou 150 fábricas entre 2016 e 2018 em meio a grandes escândalos de sanidade e segurança, como o caso da heparina em 2008.

A última história de horror foi do valsartan, medicamento comum para pressão arterial. Os chineses misturavam nitrosamina, um produto químico causador de câncer e geralmente usado para produzir combustível líquido de foguete.

Houve um recall global dos produtos em julho de 2018. No Brasil, a ANVISA soou mais um alarme em janeiro deste ano.

O coronavírus apenas deu um dos mais recentes sustos em uma ladainha de fiascos e desastres que atingiu as regiões costeiras industrializadas da China, onde foram interrompidas as linhas de produção de fármacos.

O ministro das Finanças da França, Bruno Lemaire, disse que este novo episódio é um “divisor de águas” e chamou de “irresponsável e irracional” o excesso de confiança farmacológica na China.

Essa é uma declaração extraordinária de um ex-defensor entusiasta da concorrência livre e desenfreada, escreveu Lorin.

Christoph Stoller, presidente da Medicines for Europe, que representa a indústria de genéricos, disse que não basta contentar-se com meias medidas.

É hora de repatriar a produção de remédios essenciais.

Algumas grandes empresas farmacêuticas, fornecedoras seguras e de alta qualidade no Ocidente, vêm sendo timidamente repatriadas desde 2013. Mas elas se concentram em uma nova geração de medicamentos e não nos genéricos, que são os mais necessitados.

Nos EUA, 80% dos antibióticos são da China, afirma o Departamento de Comércio. Eles incluem 95% de ibuprofeno, 91% de hidrocortisona e 45% de penicilina.

Os ditirambos do presidente Trump contra as importações chinesas não atingiram os suprimentos médicos e fármacos.

A Europa importava a maioria dos ingredientes farmacêuticos da Índia, apelidada outrora de “farmácia do mundo”. Mas agora o país asiático depende em 70% dos remédios chineses. Os esforços da Índia para recuperar sua independência farmacológica renderam pouco ou nenhum resultado.

Nos últimos 20 anos, a China construiu um formidável arsenal de fabricação de componentes farmacêuticos com preços 30% a 40% abaixo da média global.

Os fabricantes chineses se beneficiam de subsídios generosos do Estado socialista e do apoio bancário estatal na forma de empréstimos a taxas de juros insignificantes. Pequim tem intenções que vão além da saúde ou do dinheiro.

A Zhejiang Huahai Pharmaceutical (ZHP), a principal produtora de componentes usados na pressão sanguínea e nos medicamentos para a doença de Alzheimer, recebeu US $ 44,4 milhões em financiamento estatal em 2018.

A produção total da China atingiu 2,5 milhões de toneladas de remédios em 2019, 1,9 milhões das quais foram para a Europa, com um valor de cerca de US $ 30 bilhões.

O Ocidente está em desvantagem no custo da mão-de-obra e estrutura de preços – leiam-se impostos e leis trabalhistas – que proíbe uma produção competitiva.

Para o Instituto Roosevelt, think tank americano com sede em Nova York, o problema é que as empresas farmacêuticas estão gerando lucros recordes, e seus recursos estão sendo amplamente partilhados entre acionistas e executivos, sacrificando os investimentos produtivos.

Em seus balanços, sete das dez grandes empresas farmacêuticas dos EUA registram que gastam mais de 100% de seus lucros recompensando acionistas.

Sem investimentos e muita pesquisa é improvável que a Europa recupere sua independência, concluiu o EFCG, lobby dos fabricantes de ingredientes farmacêuticos ativos sedeado em Bruxelas.

Taixing perto do delta do rio Yangtze enviou 46 barris de xarope tóxico para o Panamá. Fonte New York Times
Taixing perto do delta do rio Yangtze enviou 46 barris de xarope tóxico para o Panamá.
Fonte New York Times
Embora isso leve tempo, há esperança. Nos EUA, diante de escassez e preços altos, 900 hospitais lançaram em 2018 a Civica RX, uma empresa de genéricos sem fins lucrativos.

A mesma está em parceria com a empresa dinamarquesa Xellia e a Hikima, com sede em Londres, para fabricar 14 outros medicamentos essenciais.

O grande problema, entretanto, permanece: desde os tempos de Mao Tsé-Tung a China deixou sempre claro que queria assumir a hegemonia mundial em todos os campos da atividade humana, sacrificando, se necessário, imensos setores de sua população.

E os riquíssimos potentados ocidentais – particulares ou líderes de governos – de tendências esquerdistas diversas lhe entregaram as fábricas com as quais agora o gigante maoista pôs o mundo em sua dependência com vistas a dominá-lo.

Isso nunca poderia ter acontecido.


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