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terça-feira, 11 de julho de 2017

A alma chinesa aspira à hierarquia social, à tradição e ao requinte

Refeição chinesa tradicional.
Refeição chinesa tradicional.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Mao Tsé-Tung, fundador do comunismo chinês, disse outrora que uma revolução não é um banquete: todas as formas de feiura e de crime estavam legitimadas na revolução niveladora do comunismo.

Ele agiu em consequência, arrasando o passado cultural chinês, sua hierarquia social, os requintes de sua arte e as “superstições” das religiões, com ódio especial ao catolicismo, apesar de Mao ter sido formado em escola de jesuítas.

Mas sendo “a alma humana naturalmente cristã”, como disse Tertuliano, todo ser humano aspira no fundo à beleza, à perfeição e, em suma, ao catolicismo.


As conveniências de expansão da revolução comunista chinesa exigiram um abrandamento da ditadura miserabilista.

Então a China virou potência industrial e comercial. Com uma consequência indesejada pelo marxismo: setores dela passaram a usufruir de algumas vantagens da civilização ocidental, outrora cristã.

E o fundo da alma chinesa voltou a se manifestar: ela quer a beleza, a boa ordem, o requinte e o luxo, inclusive no lar. Quer um serviço de mesa impecável para os dias de festa e o vinho servido em taças.

Quaisquer que sejam as restrições que se lhe possam fazer, a série televisiva “Downton Abbey” foi um detonante desses anelos profundos da alma chinesa.

E os “novos ricos” da China, rudes e pouco refinados, foram tomados pela saudade da velha escola de educação e requinte. Enquanto os estilos comunistas estão associados à morte, os modelos ocidentais fazem furor.

Já tivemos ocasião de falar dos bons modos no relacionamento público.

Escola para mordomos em  Chengdu. Estudantes Liu Janmin e Zhang Ling acertam a boa disposição dos copos.
Escola para mordomos em  Chengdu.
Estudantes Liu Janmin e Zhang Ling acertam a boa disposição dos copos.
Agora o jornal “The New York Times”, sempre associado às causas degradantes da Revolução Cultural, teve de tratar da demanda na China, de serviços de mordomos locais formados na escola das mansões britânicas, popularizados por “Downton Abbey”.

As agências e escolas de formação de mordomos vêm operando na China há mais de uma década. E o número de candidatos cresceu marcadamente nos anos recentes. A maioria é chinesa e muitos são mulheres.

A Academia Internacional de Mordomos da China, por exemplo, foi inaugurada em 2014, em Chengdu, cidade do sudoeste habitualmente coberta pela neblina. Talvez essa seja uma analogia com Londres, mas é secundário.

O presidente chinês, Xi Jinping, está engajado numa campanha radical contra a desigualdade social e cultural e o abandono da filosofia marxista, niveladora das categorias sociais.

Ele vocifera contra a corrupção e o esbanjamento que, por certo, abundam em proporções descomunais no socialismo de Estado.

Mas os mordomos encontram cada vez mais empregos, como símbolos do bom gosto e do requinte a que aspiram inúmeros chineses enriquecidos recentemente.

Muitos dos formados na academia vão trabalhar em restaurantes, hotéis e centros de negócios luxuosos, onde os que não podem pagar um mordomo particular vão sonhar um momento com algo assim.

Luo Jinhuan, por exemplo, trabalhou de mordomo em Xangai e Pequim, após aprender o ofício na Holanda.

Os promotores da nova onda afirmam que “Downton Abbey” ajudou a reavivar um novo interesse pelo serviço requintado, restabelecendo as pontes com o serviço da velha escolha da China.

“Comecei a entender a profissão depois de ver ‘Downton Abbey’”, disse Xu Shitao, nascida em Pequim há 34 anos, que toma aulas na academia de Chengdu.

Ela e seus companheiros de aula perceberam que ser mordomo na vida real é árduo, mas nem por isso pensam desistir.

Aprendendo a servir a champagne na Academia Internacional de Chengdu
Aprendendo a servir a champagne na Academia Internacional de Chengdu
Levaram uma manhã inteira praticando servir o vinho e a água.

“Estica-te, serve, para cima, gira, para trás, limpa. Tenta esticar mais o braço”, ordenava Christopher Noble, instrutor americano auxiliado por seu indispensável tradutor. “Tu tens que entender que estás fazendo um balé”.

Os patrões chineses esquecem com frequência o que é um verdadeiro dono de casa. E tratam seus mordomos como lacaios para qualquer coisa.

Mas isso é contra a ideia tradicional do mordomo, que é a de um respeitado administrador do lar.

As dificuldades não tiram a vontade de adotar uma função serviçal, rodeada intrinsecamente de dignidade e respeito.

“Muitos de nossos milionários são ricos de primeira geração – outrora se dizia ‘parvenus’ ou ‘nouveaux riches’ – e não têm acumulada uma longa historia familiar”, explicou Yang Linjun, 22 anos, aluno na academia de mordomos de Chengdu.

Yang Linjun gostaria servir nobres tradicionais, de famílias afidalgadas, após séculos de cultura transmitida de pai para filho. A nobreza dos patrões dignifica e eleva seus servidores e Yang sente isso na própria pele.


Um comentário:

  1. Isso é bom ou isso é ruim? Os ricos terem mordomos e estes terem um emprego digno?

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